Quarto-crescente

A bem da verdade, já não era sexta-feira e sim, madrugada de sábado. Fazia calor, o rio exalava um cheiro acre, e naquele bar, onde quase todos se conheciam, ele, que a poucos conhecia, tocava.
Não era bonito. Camisa em desalinho, sem gravata, calça social, sapato horrível, paletó esquecido numa cadeira qualquer. Viera de um casamento. E tocava como um deus. Um deus tropical, trôpego e lascivo, com olhos de anjo, boca e mãos de cafajeste.
À saída, beijou-a sem pedir licença. Longamente. A ela, que não o conhecia. Depois, olhou-a nos olhos e disse que tanto a esperara. Ela riu. Conversa fiada, pensou. Nada disse. Deixou que a beijasse de novo antes de partir.
Amanhecera. O calor aumentara. O hálito do rio sossegara. Os amigos se entreolhavam. Ninguém entendera nada. Nem ela. Mas os dias nunca mais foram banais como antes.
Márcia Maia
_________________________________________
Márcia Maia é médica no Recife. Também, ótima contista
e poetisa. Leiam mais em seu blog:Clique aqui
2 Comentários:
Gostei de conhecer a escrita de Marcia Maia. E também passarei, com mais vagar, no blog.
Abraço
Por
Tere Tavares, Às
10:47 PM
Ôxe, eu pensei que já tinha comentado e agradecido.
Obrigadíssima, amigo.
Um beijo grande daqui.
Por
Márcia Maia, Às
7:54 AM
Postar um comentário
Assinar Postar comentários [Atom]
<< Página inicial