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segunda-feira, setembro 25, 2006

Lembranças do futuro


Confesso que me sinto desconfortável quando ouço notícias sobre a venda de lugares em filas no INSS. Pessoas sem escrúpulos fazem da doença e da miséria dos outros um meio de obter algum lucro, perpetuando a famosa Lei do Gérson.

Penso , então, nos velhos e no papel subalterno que lhes foi destinado neste filme nacional, com produção pobre e sem efeitos especiais. Pois ser velho, neste país, é depender das migalhas da aposentadoria, dos parcos e deficientes serviços de saúde e ingressar no ostracismo cultural e existencial, salvo raríssimas exceções.

Relegado pelos filhos, muitas vezes confinados em instituições geriátricas, o idoso parece fazer um estágio para a morte. Carente de carinho e consideração assiste manhãs e noites se sucedendo e espera por um domingo de visitas, quando elas acontecem...

Que ironia, nas sociedades tribais o trato com o idoso é mais civilizado. Nestes grupos, eles representam os sábios, os pajés, aqueles que transmitem a tradição oral a seus descendentes. Vistos como repositórios de sabedoria, gozam de posição e prestígio.

Nos países orientais, o culto aos antepassados influenciado pela educação e a religiosidade continua muito presente. Fotos de avôs, tataravôs e antepassados, adornam os altares e oferendas são endereçadas a eles. Os jovens se dirigem aos mais velhos de forma respeitosa, quase cerimonial.

Infelizmente, estamos no Brasil, onde ter quarenta anos é quase sinônimo de aposentadoria profissional. País em que o essencial para a mídia é um corpo sarado, as intrigas do show business, o rosto sem rugas, esses signos de juventude e futilidade...

Do alto de meus quarenta e seis anos, olho adiante e sinto vertigens. Que país irá me aguardar quando as rugas mapearem meu rosto, a aposentadoria abrir as portas e meus lapsos de memória aumentarem...

Enquanto isso, teimosamente escrevo e tento dar um testemunho de meu tempo. Quem sabe não aspiro a esta “imortalidade”, a ser desencavada nos chips e semicondutores do futuro. Uma nova Era de Aquarius, magicamente, a unir jovens e maduros, todas as tribos, como naquela “aldeia global”, que Marshal Mac Luhan falava. O futuro dirá...



Ricardo Mainieri

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